Papo de mãe, papo de mulher

Papo de mãe  –  Papo de mulher

Estive escrevendo muito, do jeito que  mais gosto: a lápis no meu caderno preto (foto no post “qual é seu mantra?”) Estive lendo muito também, até aí – nada de novo! Duas semanas de intensa atividade onírica (recordadas na íntegra) com inspiração farta da leitura  de “A Prostituta Sagrada”. A princípio, o título soa contraditório, sagrado e profano podem existir dentro da mesma pessoa? Seria mais uma pegadinha da dualidade? Em casa, escondi o livro por uns dias, constrangida. O que minhas meninas iriam pensar? Que estou fazendo cursinho de especialização para trabalhar à noite? Longe disso e mais longe ainda das picantes peripécias pintadas em cinquenta tons de cinza – sobre esse livro, só ouvi muito a respeito. Se, pelo menos fosse mais colorido…

Me encantei com um Jung da mais pura qualidade na voz de Nancy Quails Corbett. Contração e expansão do feminino através dos tempos. Sempre em ciclos. A humanidade oscilando entre opostos como um pêndulo. Nós balançamos junto nesse vai e vem infinito. Essa imagem me lembra que o equilíbrio mora no centro – esse pêndulo só pode ser budista! Será que no centro há movimento? A vida não existe “parada”, a vida é movimento, extremos radicais é que nos prejudicam. Extremos de temperatura, de temperamento, gula ou passar fome, estudar demais ou ficar estagnado e perder o trem…

Parêntesis: interessante que mesmo no budismo, que eu admiro muito, os expoentes são homens. Os lamas são homens – lama traduz-se como guru, professor, mestre e é um termo usado para os dois gêneros. Nunca vi um “dalai lama” mulher.

Se estamos nesse plano onde os opostos estão presentes em todas as atividades é porque temos algo a aprender com isso. Respeito, nem se fala, é lição do pré-escola.  Feminino e masculino em oposição e guerra ou em complemento e harmonia? Em primeiro lugar, dentro de nós, anima e animus precisam conversar como velhos amigos.

Nascemos com a parte genética relativamente definida, heranças da família biológica e da família espiritual – essa menos visível. Suponho que todo esse conjunto seja a base sobre a qual os aspectos culturais serão assentados. Um bebê não é exatamente uma página em branco onde podemos imprimir qualquer coisa. Podemos crescer e sumir de casa, podemos trocar de marido ou esposa mas os nossos ancestrais continuam integrando a nossa psique, mesmo que sejam renegados por nós com toda a força da alma.

Padrões de feminino e o masculino são em parte inatos e em parte adquiridos. Por muito tempo foi assim: meninos faziam coisas “de menino” e esses comportamentos eram reforçados. Idem para as meninas, cada um no seu quadrado, perpetuando as diferenças de gênero. Felizmente, hoje o molde que nos define não é tão rígido, mudanças vem acontecendo pelo bem de todos.

Com relação à parte cultural que é aprendida em casa e na sociedade, a responsabilidade pela educação da prole ficava quase sempre a cargo das mães. A participação ativa dos pais nessa empreitada vem sendo cada vez mais estimulada, buscando um equilíbrio. Contudo, em casa ou na escola, a presença feminina cuidando das crianças continua marcante – como mães, babás, cuidadoras ou professoras. Ainda hoje, a imensa maioria dos professores é mulher – do berçário ao fim do ensino fundamental. Quando chegamos no ensino médio, professores homens tem participação relevante. Mas nesse ponto da vida, o estrago já está feito. É na primeira infância que se estabelecem as bases da personalidade.

Quem educa as crianças para serem macho ou fêmea?

As mulheres são – somos – as maiores responsáveis.

Sem negar a influência dos pais severos ou acessíveis que facilitam ou complicam a vida da gente.

Quais são as cargas emocionais, traumas, conceitos e preconceitos conscientes e inconscientes que uma mãe/cuidadora transfere no trato com os filhos? Quantas vezes ela foi ouvida nos assuntos da família tanto quando seus irmãos homens? Ela foi tratada com respeito ou desprezo? Quantas vezes ela teve de deixar suas necessidades de lado para atender os outros? Quais foram as experiências marcantes na sua infância? Que liberdade ela tem de ser quem ela almeja ou gostaria de ser?

A estória se repete. Romper com os padrões internalizados há gerações requer esforço consciente. Vontade de ver-se no espelho sem maquiagem. Coragem de tirar a roupa costurada no corpo com os padrões antiquados. Requer clareza e uma consciência em expansão que não se contenta em ser normal.

O despertar espiritual normalmente é trabalhado independente de gênero. Entretanto, tenho visto muitos grupos de mulheres se formando ultimamente, buscando acolher e re-significar o feminino dentro dos nossos corpos e mentes. Buscando cura para as nossas feridas. Tive a felicidade de participar de uma ciranda de mulheres deliciosa e especial. Encontros mensais tecidos com amor e sabedoria, sem pressa, com espaço para trocas e dicas preciosas. Banhos de inspiração aromatizados e integração entre sombra e brilho. Gratidão imensa Luciana Cerqueira (https://constelacaosistemica.wordpress.com/luciana-cerqueira/) por esses encontros mágicos, onde trançamos o feminino e o masculino no mesmo tear sagrado.

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