Ficar sem reclamar é possível?

Reclamar é um vício. Duvida? A gente não consegue ficar um dia sem reclamar. Reclama-se do tempo, do trânsito, dos filhos que não guardam as coisas, da falta de educação das pessoas, do sistema de saúde, do salário que não chega ao final do mês… tantas coisas.

A gente reclama para ter assunto no elevador, nas esperas intermináveis em consultórios, para ser simpático com os amigos – se todos xingam o técnico do time, você vai ficar de fora? Se todas as amigas reclamam dos maridos, você vai se atrever a dizer que o seu põe a louça na máquina depois que as visitas vão embora? Seria uma afronta, não é?

Tem se falado muito sobre esse tema. No último encontro da ciranda do feminino em dezembro do ano passado, fomos convidadas a presentear as participantes com alguma experiência, uma canção, um poema, um bolinho… qualquer coisa. Fui convidada a tocar minha tigela de cristal. Momento delicioso. As oferendas foram as mais variadas. Uma querida levou material para criarmos nosso sabonete líquido com aromas naturais. Passamos um bom tempo, apurando o faro para detectar o perfume mais prazeroso para aplicar na pele. Outra nos presenteou com delicados terços de contas feitos por ela mesma e uma nova forma de seguir o rosário católico, chamada de “terço do amor”.

Uma terceira colega trouxe a seguinte ideia: 21 dias sem reclamar para reprogramar seu cérebro, descartar as sinapses automáticas de teor negativo abrindo espaço para melhorias de toda sorte. Para marcar essa contagem nada fácil com algo concreto, ela trouxe pulseiras da amizade. A ideia era a seguinte: começamos no dia 1 com a pulseira em um dos punhos, o direito, por exemplo. Passamos o dia exercitando o auto-controle, os nervos, a impulsividade e, principalmente, a boca fechada. Sempre que houver um deslize, trocamos a pulseira de lado e assim vamos marcando os nossos sucessos ou tropeços.

Confesso que achei que seria mais fácil do que foi. Comecei meu projeto animadíssima! A pulseira não combinava com todas as roupas mas, mesmo assim, fui na fé. Tive uns dias tranquilos e outros em que trocava a pulseira de lado insanamente. Sempre que é preciso alternar o braço, a conta recomeça e o dia 21 fica mais loooonnngeeeee.

Em dezembro, com toda confusão de natal, festas, presentes, apresentações…. foi um suplício! Numa determinada hora, atirei a pulseira longe e decretei que aquele era o fim! Não o fim das reclamações como eu pretendia, mas o fim da tortura auto-imposta de tentar não reclamar.

Considerando que reclamar engloba um amplo arsenal de palavras e gestos e ironias e respirações pesadas e onomatopeias e trejeitos faciais silenciosos aparentemente inofensivos…. não é trabalho para principiante.

Meses depois….

Confeccionei a minha linda japa mala de fluorita e sobraram algumas esferas mágicas, prontamente transformadas numa pulseira. Em vários tons de roxo, rosa, azul e verde – essa sim combina com quase todas as minhas roupas e tem me acompanhado todos os dias, ampliando a conexão mente-coração, me trazendo clareza e serenidade.

Então tomei coragem novamente e retomei o projeto do extermínio da reclamação, me sentindo o próprio Arnold Schwarzenegger. Os primeiros quatro dias foram tranquilos, maravilha! Devemos considerar que estamos em férias em Sampa e a redução do número de veículos alucinados me ajuda bastante. Na tentativa passada, as minhas reações drásticas tinham um endereço certo: os cruzamentos da cidade.

E quando parecia que estava indo muito bem, obrigada, numa noite tranquila sem lua, no conforto do meu lar… Surtei! Saí do quarto e reclamei de tudo em casa – da louça, da comida sem guardar, das tintas abertas, da areia do gato que ninguém limpa, de tudo que encontrei pelo caminho. Um horror! De onde veio isso? Das profundezas da minha psique, emergiu um monstro do lago Ness-gatividade revoltado e neurótico tal qual uma besta enjaulada e faminta. Vergonha? Nada de ficar se batendo e se julgando. Bora recomeçar. Voltamos ao dia 1 com per-se-ve-ran-ça.

Vamos lá: de volta ao único momento que existe – o agora. Não é à toa que o presente chama-se presente: todos os dias ganhamos o “presente” de presente para escolher ser recomeçar fazer crescer reunir alcançar falar curtir amar trabalhar sorrir elogiar caminhar meditar cantar dançar estudar brincar pedalar abraçar… tudo, reclamar NÃO!

Eu estou tentando hoje ser melhor que ontem – teimosa. O trabalho nunca acaba  – nem o interno nem o externo, então melhor que seja feito com bom humor!

 

Para comprovar, segue uma pesquisa de neurocientistas sobre o assunto: https://osegredo.com.br/2017/03/neurocientistas-confirmam-em-21-dias-voce-reprograma-o-seu-cerebro/

Nas minhas buscas, encontrei uma versão dessa tentativa insana porém necessária, com ótima explicação sobre as redes neurais de programação cerebral: https://papodehomem.com.br/o-que-aprendi-em-21-dias-sem-reclamar/

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