Budismo moderno

Desde o tempo em que recebia acolhimento e luz semanalmente na terapia com Simone Lucena, comecei a me aprofundar em conceitos do budismo que faziam muito sentido para mim, dos quais tinha conhecimento apenas por leituras.

Ano passado, devido ao câncer na tireoide, minha querida amiga Malu Lima (Morada do Tarot) me emprestou um livro da psicóloga e escritora Bel César, mãe de Lama Michel, chamado “Câncer, quando a vida pede por um novo ajuste” – falo dele em http://bit.ly/Tempo_estranho5.

Esse livro narra o período em que ela descobriu o mesmo câncer, explica sobre o tratamento e como os ensinamentos do budismo lhe deram o alicerce em meio às dúvidas e limitações naturais dessa fase. Seu caminho de retorno à saúde fez parada no oriente e foi permeado por ensinamentos de seus mestres em templos e estupas sagradas. O corpo no timão da vida. Intuição sinalizando o caminho e permitindo um estado de abertura para o recebimento.

Na sequência e bem lentamente, li “O Livro da Emoções” – onde Bel trata de assuntos com os quais lidamos diariamente como irritação, vergonha, preguiça, medo, autossabotagem, frustração, morte e luto. Para cada um desses temas, a filosofia budista apresenta uma abordagem ou “remédio” eficaz, uma forma de reflexão, meditação, uma deidade na qual se apoiar em busca de energia. O budismo nos oferece um caminho de iluminação onde não há espaço para esconder a negatividade embaixo do tapete do inconsciente. Usamos essas emoções como material de estudo para alcançar a paz.

A autora sugere abrir o livro de forma aleatória em qualquer página, como um oráculo – amo oráculos, então adorei a sugestão! Meu primeiro contato com o livro foi assim: segurei-o entre as mãos, fechei os olhos e me perguntei ‘o que toda essa estória de câncer tem a me ensinar’. Não desejo deixar passar desapercebida nem a mais mínima informação. Abri no capítulo da morte. Soco de direita direto no estômago. Tá bom pra você?

Enquanto isso… do outro lado do mundo, meu instrutor de processos corporais, Anthony Mattis, me manda esse processo: “estou morrendo para fugir de quê?” Eis que das profundezas da consciência surge novamente a morte para dar sentido à vida.

O que eu decidi ser tão real que não posso mudar que a única forma de mudar seria mudando de corpo porque esse corpo aqui não dá conta? Que bicho é esse que não posso enfrentar que preciso ir embora e deixar tudo? Quando eu defini que a única saída para a Vida nesse momento seria a morte? O que é isso que importei para dentro de mim e tornei tão sólido que não deixo meu corpo curar ou mudar? Para começo de conversa, seja-lá-o-que-for-isso me pertence? Tudo o que é e representa e cria no meu corpo e me prende num enredo fixo de ideias fixas resultados fixos sem alternativa e não me permite ser quem eu posso ser… em qualquer tempo, espaço, realidades e dimensões, vidas… Adeus! Good-bye! Au revoir! Ciao! Auf Wiedersehen!

Access não estimula a investigação de porquês. Os porquês ajustam o espelho retrovisor para trás, para ver a estrada onde já passou, nos enroscam no drama, no mi-mi-mi da realidade. “Por que eu?” não é uma pergunta válida – não ajuda resolver a questão. Tampouco importa dar nomes, conceituar, esmiuçar as entranhas da dor. No fundo, seja qual for o nome, é tudo sofrimento mesmo pintado de diferentes cores. Vai gastar energia com isso ou prefere partir pra solução?

O budismo também recomenda não se concentrar nos porquês. Se a gente fica tentando entender cognitivamente os eventos, acaba se distanciando e perde a oportunidade de vivenciar a transformação: a intimidade com a própria mente, a experiência direta consigo mesmo. Quando tivermos integrado a experiência, a compreensão surgirá naturalmente. Só que, para ter essa experiência direta, é necessário um pouquinho de coragem.

Afinal de contas, sem coragem para receber as respostas (que podem ser bem desagradáveis), a gente nem consegue fazer as perguntas certas. Ou fica enrolando, dando voltas ao assunto, rodando pelas beiradas com pequenas melhoras mas nada significativo. Cada coisa no seu tempo. Forçar a abertura antes do devido tempo tampouco funciona.

A vida traz desafios, a forma como reagimos a eles é que nos torna mais ou menos capazes de seguir em frente com leveza ou com pesar. Ficar atentos ao mundo interior nos permite aguçar a percepção para as mudanças sutis, nos permite encontrar a paz interna para superar os obstáculos.

Quando tratamos as dores e desconfortos com meditação e mantras, estamos nos conectando com budas para acessar a sua força, clareza, cura de medos e tantos outros estados mentais. A transformação possível que emana deles em forma de luz divina penetra no nosso coração, mente e corpos e, aos poucos, passa a fazer parte de nós.

Como dizia Jung “ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz”, mas sim quando encara a própria sombra. O guerreiro espiritual é aquele que vence a si mesmo. A luta é sempre interna. O lado de fora apenas reflete o interior. Quando você olha para dentro, você se sente à vontade com você mesmo no seu jogo de luzes e sombras?

Encarar nosso lado escuro e emoções negativas dá medo porque existe o risco de atolarmos neles feito areia movediça, sem conseguir sair do lugar. Como achar coragem para encarar o monstro de frente?

Um dos melhores subprodutos da meditação é justamente perceber que não somos as nossas emoções. Somos um observador (consciência) que percebe as emoções, porém – como todo o resto – elas passam. A santa impermanência amiga de todas as horas: “tudo passa”, como dizia minha mãe que nunca estudou budismo. Até mesmo o pior pesadelo. O melhor dia da sua vida também passa.

A percepção de não ser a raiva, não ser o ciúme, não ser a frustração ou a limitação nos permite ser livres.

Ser o oceano e não as ondas turbulentas na superfície.

Ser o céu azul e não as nuvens carregadas.

Ser luz e não o surto de raiva.

A natureza da mente é pura calma e plenitude – sempre. Nós insistimos em nos identificar com a tempestade que nos impede de vermos o céu lindo e limpo por trás das nuvens. Para ver além das nuvens, medite!

Em seu livro “Mania de Sofrer”, Bel explica em detalhes a roda da vida, os três venenos da mente, os seis reinos, os doze elos e o karma. Como passamos de um “reino” ou estado mental para outro, como identificar o sofrimento e suas características peculiares para lidar melhor com a vida e as outras pessoas.

Convivemos diariamente com pessoas em diferentes estados evolutivos (mentais) que, assim como nós, mantêm marcas mentais do seu passado como lentes coloridas e só conseguem ver a vida nesses tons. São condicionamentos automáticos como um programa de computador que roda a mesma rotina vez após outra. Cada estado mental tem um tipo de sofrimento característico e um trabalho interno específico se desejar se libertar dele.

Aprofundar esse conhecimento nos permite praticar a compaixão, a autocompaixão, melhorar os relacionamentos pessoais e cuidar do que realmente importa na vida: romper a cadeia do sofrimento. Novamente, o autoconhecimento é a base de tudo!

Quanto tempo de seu dia ou da sua semana você dedica a si mesmo, ao seu mundo interior?

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