Saudades

Respondendo a um chamado da querida Elisa Motta, escrevi uma carta a um desconhecido como parte de um projeto de levar atenção e carinho a pessoas de um asilo. Daí veio a questão principal: escrever sobre o quê para alguém que nunca me viu e provavelmente vai me ver? O que pode ser de interesse dessa pessoa?

Pensar em “falar” para um vovô ou uma vovó, me fez lembrar dos meus avós, todos os quatro já falecidos. Aí bateu uma saudade…. e fui lembrando…

Um deles, o pai da minha mãe, nem cheguei a conhecer. Ele resolveu ir embora desse plano no aniversário de 15 anos dela. Pesado. Esse luto durou muitos anos.

A mãe da minha mãe era muito próxima da gente. Ela era a abelha rainha que coordenava uma colmeia de mais de 100 pessoas – 10 filhos, netos, bisnetos e agregados de todos os níveis. Ela era pura união. Ela era coração e mente num só ritmo. Ela era forte!

Engraçado que ela não era chamada de mas sim de “Madrinha” – era a fada madrinha de todos nós.

Impressionante que ela não pedia a presença de ninguém – e ainda assim todos queriam passar o natal perto dela. Para mim, eram três meses de pura diversão.

Tantas férias passei na sua casa e sinto que não a conheci de verdade. Eu – muito ocupada brincando, fazendo bagunça, quebrando umas coisinhas de vez em quando, sempre sem querer – eu juro! Ela – sempre ocupada cozinhando e gerenciando um exército de assistentes que invadiam a sua casa e tomavam conta do pedaço – compartilhar, dividir, acomodar, multiplicar, alimentar. Como se aprende na prática a conjugar os verbos. Aquilo sim era o milagre da multiplicação do pão todos os dias.

Ela não era dessas avós que fica sentada no sofá tricotando. Nem colocava a gente no colo para ver televisão. Na varanda, ela tinha aquelas cadeiras de tirinhas de plástico que passaram de ‘coisa de interior’ para ‘brega’ e recentemente para ‘vintage’…. Imagino algum designer de móveis bacana e sua avó na varanda jogando conversa fora.

Ela tinha uma igreja no quintal, já pensou nisso? Não era uma capela não, era uma igreja de verdade, cabia mais de 100 pessoas dentro! Lembro bem da voz das beatas cantando as orações sacras. A igreja era um ótimo esconderijo para as nossas brincadeiras.

Eu ali, tão pequena, no meio daquele mundaréu de gente, olhava para minha avó e via uma pessoa gigante e poderosa. Pra mim, ela sabia tudo! Sabia de tudo! Sabia fazer sabão, reciclar lixo, destroncar um frango mais rápido que um raio! Coitado do frango! A criançada corria feito doida atrás dele mas, quase sempre, ele levava a melhor. Precisava de uns vinte meninos para pegar um único frango.

Na casa dela, a gente podia se sujar, andar descalço, tomar chuva, pular nas poças no quintal…

A gente podia comer jabuticaba no pé – na hora do almoço, fazer guerra de mamona, caçar sapos no brejo…

Na casa dela, minha mãe me “esquecia” e eu passava as férias sendo eu mesma, naturalmente.

Na casa dela, eu cresci e virei mulher.

Tudo bem que a gente pegava um olho de peixe ou bicho geográfico de vez em quando, mas isso também ela sabia resolver. Pegava um prato, água e linha de costurar e pronto: fazia um benzimento e a linha mexia sozinha – uau, aquilo sim era mágico! Em dois dias, tudo resolvido.

Eu não entendia nada do que ela falava nessas rezas mas ficava colada na mesa, que era da minha altura, olhando de boca aberta. Acho que ela falava a língua dos anjos.

Ela era uma fortaleza. Criou os dez filhos sozinha. Casou cada um deles com grandes festas e muito trabalho – tudo era feito em casa.

Calma
Segurança
Alegria

Sabedoria
Liberdade
Amor
Coragem

Tudo isso, eu aprendi com ela sem que tenha me falado nada diretamente. Tudo isso e muito mais. Quem sabe um dia, eu chego perto… Gratidão Madrinha.

 

Elisa Motta, Projeto Querido Desconhecido:  https://isamottabr.wixsite.com/isamotta

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