A benção da chuva

Imagem da praia de Astúrias no Guarujá, São Paulo. Praia que ficou famosa por conta do triplex sem dono pertencente a um ex-trabalhador sem caráter. Mas isso não vem ao caso.

Espelho d´água refletindo as nuvens escuras e os prédios ao amanhecer. Vazio delicioso. Céu pesado. Um raro momento seco numa semana de chuva contínua. Chuva que lava a sujeira deixada na areia e também lava a alma. Lavando. Lavanda.

lavanda

A chuva abençoada me proporcionou um bom sono. O barulho da chuva embalado pelas ondas do mar é uma das melhores canções de ninar que eu conheço. Só perde para o canto doce de uma mãe apaixonada pelo seu rebento.

Mas a grande ajuda da chuva essa semana foi espantar os turistas que passam a noite inteira em frente ao prédio ouvindo funk num volume absurdamente alto. Cada um tem a sua forma de comemorar. Cada um dorme a hora que quer ou pode. Mas a questão é – seria possível a pessoa se divertir com esse barulho de péssima qualidade (que eu nem chamaria de música, embora saiba que gosto não se discute) sem incomodar uma centena de pessoas de todas as idades que são obrigadas a essa tortura – impedidas de dormir, impedidas de ouvir qualquer outra música que desejem, impedidas de ter paz?

Por que só conseguem se divertir no volume máximo?
Seria para não ouvir os próprios pensamentos?
Seria para exaltar ainda mais as palavras obscenas?
Suspeito que o ruído mental desses seres deve ser impossível de medir…

Quando eu tinha 16 anos, fui fazer um intercâmbio de três meses numa cidade pequena na Inglaterra. Na escola para estrangeiros, os estudantes variavam de 16 a 45 anos, na maioria europeus e alguns raros latino-americanos – entre eles: meu irmão e eu. Lembro bem de uma reunião que fizemos uma noite. Exatamente às 22h15, a polícia chamou pelo interfone. A música estava baixa porque queríamos conversar e ninguém ali era fluente em inglês. Mesmo assim, os vizinhos acionaram a autoridade para que o som fosse desligado. Desligamos e seguimos com a festa sem incomodar ninguém. A polícia foi extremamente educada e recebida da mesma maneira.

Éramos todos estranhos naquela terra que nos acolhia temporariamente e mesmo assim acatamos as regras locais. Todos vínhamos de culturas diferentes, sabíamos que as penas seriam brandas caso insistíssemos em desobedecer e estaríamos longe dali no mês seguinte, mas desobedecer nem era considerada uma opção.

 ♥ Respeito e liberdade ♥

Como nação, como comunidade, como grupo ainda temos um longo caminho pela frente.

Quando vamos à praia, queremos sol, calor. Curiosamente nessa viagem, esqueci os óculos de sol em casa. Fazer a dança da chuva não faz parte do meu ritual. Ser impedida de dormir tampouco faz parte dos meus desejos…

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