Pertencimento

Uma senhora americana de cabelos bem branquinhos com aquele jeito gostoso de vó, Dolores Cannon, tem me feito pensar muito com seus livros. Na sua terapia de regressão, ela encontrou inúmeros pacientes com vidas passadas em todo tipo de forma, de ser, de planeta, alguns inclusive se viam integrando a fonte suprema de toda vida. Em todos os casos, existia um guia de sabedoria imensa respondendo diretamente as suas perguntas. Ela chamou esse ser de “subconsciente” (sem relação com o termo na psicologia). Em seu livro The Convoluted Universe 3, uma passagem causou um efeito mágico sobre mim, clareando uma questão que há muito tempo me incomoda. Segue minha tradução livre:

“Pertencimento é um conceito interessante. Em determinado sentido, nem existe, porque um é o todo – todo o conhecimento, toda a experiência, a pessoa está conectada. Sentimos falta desse vínculo quando nos sentimos alienados, forasteiros. Mas quando nos movemos para a conexão, o pertencimento é desnecessário.”

Nesse momento, uma longa pausa. Na minha mente, o tempo pára.

Necessário, desnecessário… Interessante olhar por esse prisma. Se somos todos um, somos todos parte de uma energia maior, como conseguimos nos sentir tão sozinhos? Se pertencimento não é necessário, tudo bem, não é preciso ficar buscando um grupo para sentir-se parte se já sou parte do Todo. Na teoria, sim. Na prática….

Na maioria das vezes, a nossa ignorância sobre a física básica da vida não nos permite perceber que somos ligados energeticamente a tudo à nossa volta – o que nos causa sofrimento, sofrimento este que nasce dessa ignorância. Separação é uma das filhas da mesma ignorância. Mesmo o espaço vazio entre nós e os outros não é vazio, é repleto de atividade e energia. Saber disso na teoria é bem diferente de viver isso na prática.

A vida na matéria se desenrola em grupos – família, amigos, colegas de trabalho… Como me sinto em cada um deles? Sou participante ativa, sou turista que entra e sai e esquece que deixa marcas ou sou um alienígena completo?

É normal eu me sentir um peixe fora d’água, um estranho no ninho. Quando pequena, havia momentos esquisitos nos quais eu sentia que meus pais e irmãos formavam um bloco e eu os observava à distância, como se eu fosse feita de outro material, quase transparente.

Com as meninas, havia barreiras invisíveis que levavam tempo até desmoronar – barreiras em forma de diferenças econômicas, aparência. Nota-se que o foco está na diferença que nos separa e não nas belezas que nos unem.

Preconceito. Separação. Rótulos. Quem coloca as barreiras – os outros ou nós mesmos? Na escola do sofrimento, passamos de ano quando aprendemos a levantar muros de proteção, a colocar grades no coração, armaduras no corpo, sistemas de alarme…. O acesso a nós mesmos, à nossa essência se torna cada vez mais difícil. Não precisa ser assim…

Minha família sempre viveu um histórico de mudanças constantes. Na busca por condições melhores para criar um time de basquete, mudamos de cidade em cidade várias vezes. Como desenvolver laços? Quando começa a engrenar um relacionamento, pisa no freio, enche o porta-malas e pé na estrada. Vários ciclos de mudança-adaptação-separação se sucedem. A cada nova partida, um suspiro profundo, busca o prana que te alimenta. Recolhe as forças que vai começar tudo de novo!

Na prática, So Hum. Na prática, a única mudança possível é interna: não preciso me sentir mal por não ficar à vontade nos grupos. Como diz a canção de Renato Russo, é solitário andar por entre a gente, solitária mas nunca só. Quando me dedico ao silêncio, os presentes do universo chegam na forma de deliciosas magias e sincronicidades. E assim, a cada dia que passa, quero ficar mais comigo. Até onde isso me leva? Não sei, mas tenho certeza de que não quero pular desse trem.

6 comentários em “Pertencimento

  1. Texto cheio de ensinamentos. Para mim caiu que nem um luva. Quase sempre me sinto assim, com a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Eu também já tive essa sensação de não pertencer à própria família, de ser um um estranho observando de longe. Com o tempo criei dentro da minha cabeça que isso é positivo, sabe? que quer dizer que eu não sou apegada. No fundo, não sei se isso é certo ou não, todavia me faz encarar a vida de uma forma mais leve. Enfim, foi legal descobrir aqui que pertencimento não é importante, pois somos todos um só. Difícil aplicar isso no dia a dia, porém saber de uma forma racional já é um grande passo. Adoro o seu blog e as coisas novas que você sempre me apresenta. Beijão.

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    1. Juju, gratidão. A gente sofre um bom tempo até se entender e se aceitar diferente. Saber que as diferenças nos fazem únicos e raros e por isso, mesmo tão importantes para o conjunto. Somos uma grande família de luz espalhada pelo planeta!!!!

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