Perguntas novas, perguntas antigas…

Palavras vão brotando no papel, o texto vai tomando forma, forma essa que muda várias vezes até atingir um ponto de satisfação – temporária. Ao longo da estrada, surgem muitas perguntas que vão ficando pelos cantos, sem resposta… Cada vez que adoto um tema para criar, ele se enrola em mim feito cobertor em tarde fria, me agasalha o corpo, me esquenta a alma.

As perguntas ficam por perto, se aglutinam formando uma nuvem elétrica de pensamentos. Perguntas calmas ou impacientes, porém todas hibernam juntas até o momento de serem clareadas.

As respostas virão, cada qual no seu tempo, de dentro do vasto oceano de sabedoria que envolve a todos nós, sei disso. Preciso embalar cada pergunta carinhosamente, confiar e entregar ao universo. E nesse vai e vem, perguntas novas surgem, por exemplo – como isso pode melhorar?

Pergunta importante essa porque sempre pode melhorar. A gente é que tem uma visão limitada demais e não se dá conta que instalamos grades em torno dos nossos sonhos para que eles caibam nas caixinhas longa-vida padronizadas pela nossa ignorância. Quando a vida está ruim, precisa evoluir. Quando seu mundo está morno, sem graça, sem tempero também pode avançar. E quando está tudo ótimo, pode alcançar um patamar ainda melhor! Por que se contentar com um padrão mediano? Vamos mirar alto, rumo ao céu, à completude, à integração com o belo e com a energia suprema.

Aqueles ditados que ouvi repetidas vezes: “sorte no jogo, azar no amor”, “não se pode ter tudo na vida”… deixa para lá, tudo bobagem, estórias da carochinha para nos manter na penumbra, à margem do nosso potencial, numa existência apenas normal. Amo a simplicidade do saudoso professor Hermógenes: “Deus me livre de ser normal!” Ser normal é se manter preso a um padrão de mediocridade onde as regras engessam as pessoas dentro de pacotes de pode-não pode, deve-não deve. Ser normal é ser estatística e ser estatística é ser doente, é ser morto-vivo ou morto de morte morrida mesmo.

A quem eu sirvo sendo normal?  Mais uma pergunta que dá coceira no pensamento… Essa fica para outro dia.

Será que dá para perguntar-se isso sempre: como pode melhorar? Sim! Começando com a gente mesmo, olhando no espelho e questionando a sua imagem: como pode melhorar? Joga a pergunta para cima, relaxa e deixa o universo responder. Abre a porta. Abre as janelas. Abre os sentidos mais sutis. A gente se sente um fracasso se não tem todas as respostas. Quanto julgamento. Melhor uma pergunta inteligente em aberto que respostas de prateleira de supermercado.

Cá entre nós, não vai fazer como fiz milênios atrás quando a minha psicóloga querida me deu de lição de casa a seguinte tarefa: olhar-me no espelho e perceber as coisas que gosto e que não gosto em mim, físicas ou não. Aquela semana passou rápido e, para meu espanto, esqueci completamente do assunto – logo eu, a miss certinha que nunca deixava lição por fazer! Quando ela me cobrou, pára tudo! Momento de pânico, eu nem suspeitava do que ela estava falando. Ela aguardava pacientemente. Instantes depois, recuperada da vergonha de ter sido pega em situação devedora, indaguei: “Ah… lembrei!!! Aquele negócio que eu tinha de olhar no espelho e procurar meus defeitos?” Ela quase caiu da cadeira e deu graças que eu tinha deletado a tarefa por completo.

Uma das razões para ela me pedir isso foi porque eu andava muito focada nas coisas negativas. Depois de um processo de separação longo e sofrido, eu tinha acabado de comprar um apê novinho só para mim, bonito, bem localizado e com o meu dinheiro, mas nem comemorei: não abri champagne, não convidei amigos para pizza, não dancei sozinha na sala – NADA! Conseguir montar um lar para chamar de meu com 26 anos de idade não é igual a comprar um sapato novo. Ainda assim, passei batido.

Por quê?

Simplificando muuuuuito mesmo, duas razões básicas:

1 – O lado prático: o apartamento era um item que já estava fora da lista de pendências (adorava ticar as tarefas resolvidas) e eu já estava focada no próximo “problema”. Afinal, a vida era resolver problemas. Se não fosse isso, o que seria então?

2 – O lado emocional: comemorar uma conquista dessas, ter o meu lugar, o meu sossego e, ainda por cima, bem aconchegante significaria que eu merecia essa festa – e quem sou eu para ter esse merecimento?

A brincadeira de esconde-esconde era entre o frenesi do item 1 encobrindo o item 2. Não fosse assim, eu teria de me olhar de verdade no espelho, sentir as feridas abertas e, para que isso não acontecesse de jeito nenhum, eu me assegurava que a agenda estivesse sempre lotada! Não era só para pagar as contas que eu trabalhava duro.

Por que passei tantos anos na vida sem saber olhar para mim mesma com carinho e amor? Sem me dar o direito de sentir o sabor doce das minhas conquistas, sem me cuidar apenas pelo prazer de me querer bem e não para parecer bonita para os outros, os outros…. Com um vazio enorme no peito, passando pela vida como um trator, só mesmo a dor para me acordar, me obrigar a encarar o espelho.

Como Jung disse um dia: “As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a própria alma.”  Até chegar o dia em que a gente cansa de sofrer e se entrega ao fluxo do coração.

4 comentários em “Perguntas novas, perguntas antigas…

    1. Obrigada pelo comentário. As coisas simples são difíceis mesmo, deixar fluir pressupõe um estado de confiança muito forte, julgar e reclamar são quase manias ou vícios generalizados….. e assim a gente vai se enroscando nessa teia. Não é fácil sair não. Mas vamos tentando! A gente consegue – uma coisa de cada vez. Vamos juntas nessa!

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