Uma estória de muito amor e muita coragem

Era uma vez, num reino muito distante… Distante nada, era aqui mesmo! Começando de novo: era uma vez, uma menina desobediente que decidiu seguir seu coração mesmo tendo de desafiar toda a família!

Logo após minha cirurgia, fiquei extremamente sensível (leia-se ‘chorona ao limite’) e a profusão de lágrimas foi intensificada pela notícia do falecimento de uma cliente muito querida. Uma pessoa que me impulsionou a buscar mais no meu trabalho e expandir. Estava comigo havia quase dois anos. Morreu de um câncer muito específico que só acomete mulheres judias, após tratar muitas metástases em mais de dez anos de resistência. Ovários, seios, intestino, fígado, cérebro. Onde mais poderia se alojar esse cara egoísta e comilão que, de tanto consumir, destrói a casa onde mora? (Qualquer semelhança com o que nós humanos estamos fazendo com o planeta…)

Se você a visse na rua, na academia, jamais suspeitaria que ela tivesse qualquer problema. Pinta de nobre, de gente rica e bem-sucedida, aparentava ter uma vida perfeita e feliz. Três filhos maravilhosos, um marido charmoso e apaixonado. Ela era um retrato da alegria pintado em cores intensas por Van Gogh. Nascida para brilhar, com o Sol em Leão, ela era o sol em pessoa. 

Ao longo desses onze anos de tratamento, ela fez várias cirurgias e contrariou todos os prognósticos. Não há, na história da medicina, um caso como o dela. A maioria das mulheres, falece em cerca de dois anos. Apesar das dores e incômodos, enjoos e todos os efeitos colaterais das inúmeras quimioterapias a que se submeteu, ela seguia fazendo exercícios e mantinha o semblante alegre.

Uma honra imensa para mim, ter conhecido essa pessoa tão especial e sua família tão querida. Cada encontro, mais inspiração: força, garra, alegria de viver, otimismo, capacidade de superação, tolerância, resiliência, tantas coisas que nem consigo enumerar. No pouco tempo que convivi com ela, aprendi muito.

Uma doença grave ensina a focar no presente, viver o agora – o AGORA é só o que temos
DE VERDADE!

Já ouviu isso em algum lugar? Pois é, é verdade! Se você finge que entendeu, porém segue alimentando as mazelas da sua vida, adiando os sonhos e desejos para amanhã como se fosse viver para sempre, é sua escolha. Sim, a vida é eterna e viveremos para sempre, porém, não nessa realidade, com essas pessoas, com esse corpo.

Tomo a liberdade de relatar aqui o pouco que ouvi da sua vida, uma grande estória de amor, que me deixou encantada. Eu me sentia assim: sentada no chão numa roda de crianças em volta da nonna ouvindo seus contos incríveis e cheios de reviravoltas, e eu, absorvendo a energia de cada palavra!

O reencontro

Com apenas 10 anos de idade, ela conheceu o seu marido. Ela olhou o menino, o mais lindo da escola, e decretou: ”esse é o pai dos meus filhos”. Simples assim. Ele, com a mesma idade, também se encantou por ela, claro. Pronto! Estavam devidamente apresentados e enganchados para mais uma vida!  

Pensa um pouco: uma criança de dez anos só quer brincar! Como uma menina tão pequena tem essa clareza, determinação ou consciência? Minha caçula tinha então 10 anos e eu pensei: ‘como isso foi possível?

A vida não estendeu um tapete vermelho na frente deles, tampouco os convidou para viver um romance hollywoodiano. Nada foi fácil. Ela era uma menina rica e ele, pobre, seu pai era feirante. Pior que isso: ele não era judeu. Tudo errado. A família dela, muito tradicional, jamais aprovaria esse namoro. Mas quem estava pensando só em namorar?

O namoro

Encontravam-se no cemitério para que ninguém os visse juntos. Tem lugar mais romântico? Aquelas canções “um amor e uma cabana” – é isso! Quantos desafios, quanta força de vontade, quanto amor! Ainda não inventaram equipamento para medir isso!

Namoraram escondido por onze anos. Ele manteve o cabelo longo para se disfarçar de menina caso os pais dela a vissem com ele por aí. Quanto bullying ele sofreu em silêncio… Não era como hoje em dia que alguns meninos tem cabelo grande e todo mundo acha normal.

Nesse namoro, foram ao cinema juntos, tomaram sorvete ou dançaram? Sem chance…

O casamento

Quando ambos completaram 21 anos, surpresa! Ela avisou os pais que iria se casar no dia seguinte. Legalmente, ela não poderia ser impedida. Um casamento planejado em segredo. Os pais compareceram. A mágoa e sentimento de traição escritos a ferro quente no rosto e no coração deles. Para a mãe dela, principalmente, esse foi um golpe dilacerante.

Tempos depois, a irmã dela se casa com o irmão dele. Coincidência? Como se não bastasse uma filha ter desobedecido os pais e à tradição religiosa, a outra segue o mesmo exemplo. Golpe número 2.

Depois de muitos sapos engolidos e muita água embaixo da ponte, as relações acabaram por se harmonizar. Eles tiveram três filhos maravilhosos. Prosperaram, construíram uma família feliz e uma empresa sólida.

Aos sessenta e um anos, eles se despedem – poucos dias após o falecimento da mãe dela. Elas foram juntas.

Essa imagem, enviada pelo marido dela, ilustra as fases da vida deles.

Tudo o que ela foi obrigada a esconder: o amor, a felicidade, o riso… Quem já se apaixonou alguma vez, sabe o quanto é difícil e doido, conter o sorriso largo que se instala na boca feito um outdoor e, sozinho, anuncia aos quatro ventos que estamos irremediavelmente in love.

Ai a pessoa se habitua a esconder coisas. “É impressionante o que eu consigo esconder”, ela me confessou um dia. Por isso, as pessoas em volta nem sempre percebiam quando ela se sentia mal, exausta, nauseada. Será que ela era vista de verdade, por dentro? Talvez notassem tudo e talvez fosse pesado demais… Câncer sempre é pesado. Talvez simplesmente a tratassem normalmente pra não deixar a vida mais pesada ainda que o próprio câncer. Cada pessoa lida com esse desafio de uma forma diferente. São desafios e aprendizado para toda a família.

Outro dia, minha filha de 14 anos estava meio desanimada porque, começou a namorar um garoto muito fofo, está apaixonada e sonha que dure para o resto de sua vida (ai que lindo!). Tudo certo entre eles, então por que ficar triste? Ela me disse que não pode “esperar” que dê certo para a vida toda porque todo mundo que ela conhece se separa, então o relacionamento dela também estaria fadado a acabar, como uma maldição moderna.

Isso nem sempre é verdade. Há relacionamentos que começam cedo e duram para sempre, não só os dos avós velhinhos ou o da minha cliente. Minha irmã e meu cunhado começaram a namorar aos 15 anos.

Minha filha nem desconfiava que, tão perto dela, na mesma família, havia um casamento de sucesso iniciado na adolescência. Não consigo contar quantos pulos de alegria ela deu quando lhe contei essas estórias, até então desconhecidas.

E tudo aconteceu num reino tão tão perto, há muito muito pouco tempo atrás.

Sim, o amor existe, nasce no coração, o faz bater mais forte e bombear coragem para enfrentar o mundo, se for preciso!

Minha homenagem singela à Sheila

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