Diário de um tempo estranho 9

Tempo de ter tempo. AGORA.

Esse tempo de ter tempo passa tão rápido como o tempo sem tempo. Quando se tem muito tempo à disposição por alguma limitação ou falta de ocupação, vem o desafio de perceber se administramos bem esse recurso ou não.

No momento, estou de repouso. Não posso sair, nem dançar, nem falar muito. A voz voltando aos poucos. Quase um retiro, um meio retiro de silêncio. No mês de outubro, eu havia programado um retiro de silêncio que não aconteceu – ou foi adiado para agora? Ser obrigatoriamente econômica com as palavras acaba sendo uma libertação: as pessoas precisam se resolver sem mim. Um santo treinamento – para mim e para elas. As pessoas precisam prescindir de mim, não posso ser necessária a ponto de o show da vida parar porque eu me retirei de cena.

Quando a gente se faz muito necessário – afh como cansa! – pode ser reflexo de uma insegurança lá no fundo que diz: “oi, se ninguém ‘precisar’ de você, ninguém vai lembrar que você existe… você vai ficar so-zi-nha! amiga, você dá conta disso?”

Ou…

Quando você se coloca extremamente à disposição dos outros para resolver problemas, ajudar a equilibrar as petecas, levar e trazer, consertar, ajustar, prover, indicar etc, você se torna esse ‘ser necessário’ e se sente importante, ok, porque resolve os problemas dos outros e, como consequência, se sobrecarrega de tarefas, fica sem tempo para as suas atividades/desejos pessoais, impede o processo de aprendizado deles para se tornarem independentes e limpar suas cacas sozinhos (mesmo que precisem refazer 40 vezes) e cria um monte de dependentes reclamões, folgados e ingratos. Isso também nasce no berço da insegurança, coberto por uma manta quadriculada de controle e eficiência.

Nos primeiros dias depois de voltar do hospital, me senti num mar de tristeza tão profundo que me afogava em lágrimas sem o menor esforço. Sem conseguir focar a atenção ou mesmo as vistas numa leitura. Sem chão. Será que roubaram meu chacra básico? Meditar, sem chance, ler uma página já era cansativo. Desperdício de tempo, esse recurso tão precioso que costuma ser escasso na minha vida. Olha aí mais cobrança interna, dona Denise, cancela isso!

A tristeza foi o material de trabalho desses dias – uma tristeza de gerações, dezenas de pessoas encalacradas em mim por ressonância, dna ou sei lá o que mais. “Tristeza, sai desse corpo que não te pertence! Isso é uma ordem!” Devolve, elimina, purifica, expurga, dissolve, desintegra, destrói tudo isso um zilhão de vezes se for preciso.

Nesses dois dias, meu gato Joey alterou completamente a sua rotina. Em vez de dormir quase o dia todo escondido na bicama da minha caçula, ele virou minha sombra: em qualquer lugar que eu estava, ele estava junto. Deitado na cama a meu lado ou entre minhas pernas, na cozinha, na varanda… Era só eu me mover, ele vinha e parava ao meu lado.

Joey de guarda.

Quando Joey voltou a passar o dia debaixo da cama, percebi como um sinal claro do meu resgate do fundo do poço. O fim desses dias pesados, coincide com o início da reposição hormonal e com ela, se inicia outro processo de adaptação. Cansaço, moleza no corpo, um certo vazio mental, por vezes, um olhar perdido no horizonte como se houvesse um horizonte em São Paulo para a gente se perder nele.

Sorrateiramente, como sombras gosmentas, algumas dúvidas começam a invadir meu campo mental. Será que consigo voltar a trabalhar semana que vem como planejei? Será que vou dar conta de fazer tudo o que eu fazia antes? Será que vou ser a mesma pessoa que eu era? (Isso, de alguma forma!) O que muda em mim quando tiram a porta dos céus de dentro da minha garganta?

A dificuldade de simplesmente estar no momento presente e ser o que é possível ser a cada momento sem ficar projetando, planejando ou tentando prever o amanhã, ou mesmo as próximas horas, entrou forte em campo como um rojão desgovernado.

Onde foi que eu perdi aquela sensação deliciosa e reconfortante de “está tudo certo’, don´t worry, be happy”.

Quando finalmente consigo acessar meu guia… ele simplesmente me tira desse plano e sugere: “hoje, viva o que há para viver hoje.”

Sossego.

Retomando as questões que assolaram a minha mente: será que vou querer realmente voltar a fazer tudo o que eu fazia antes da mesma forma, com a mesma intensidade e insanidade? Será que desejo voltar àquela correria “normal” de antes? O que eu realmente desejo ser ou fazer da minha vida? O que me traz leveza e tranquilidade? Como eu quero que a minha vida seja? ___________________________

PAUSA FORÇADA NESSE INSTANTE POR UM ESPIRRO QUE
NÃO FOI EVITADO!

Passei uma semana inteira sem espirrar nem uma única vez para não esticar os pontos. Dada a dificuldade para engolir que eu ainda sinto, deixar um jato de ar de 160km por hora atravessar a minha traqueia machucada feito um trem-bala era impensável, apavorante. Aconteceu. Passou. E nada rasgou.

Um chamado escandaloso para o momento presente.

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