Diário de um tempo estranho 6

Parte 6

Olha lá eu fazendo mais do mesmo. Coisa sem graça!

A última frase do texto anterior ficou ressoando como um sino distante na minha cabeça: “Hora de entrar com a escuta gentil, amorosa, sem barreiras. Estar à disposição. Ofertar tempo e colo. Ouvir.

Ouvir… Será? Sim! Ouvir não é dificuldade, sou PHD nisso. FALAR por outro lado… Depende. Pensa uma pessoa da área de comunicação com dificuldade de falar, parece brincadeira de mau gosto. Posso discorrer por horas sobre qualquer assunto (interessante, de preferência) porém, falar sobre mim, bem… aí já são ‘outros quinhentos’, como diz meu querido pai.

Cinco dias depois do escrito, dei mais um curso de Barras de Access para uma turma deliciosa. O tema comum entre os participantes era a dificuldade de comunicação. Olha aí esse universo lindo sendo bem claro e específico, gritando na minha orelha: FALA!

Fala o que nunca falou e ficou entalado na garganta e solidificou e virou nódulo e cresceu e virou câncer e essas palavras e lágrimas, vontades e verdades, raivas e dores congeladas no tempo deixaram de ser um floco de neve leve ao vento descendo o himalaia da vida e foi grudando em outro e outro e outro até formar uma massa tão espessa, grande e pesada que esmaga sonhos por onde passa e, de tanto poder destrutivo, precisa ser arrancada e descartada e o que foi guardado nunca será exposto, nunca será ouvido, nunca verá a luz. Um pedaço de mim morre.

A resistência em buscar essa ação drástica de cortar e arrancar tem tantos motivos quantas são as dores ali guardadas. Memórias de guilhotinas rápidas e precisas, de palavras cortantes, de lâminas afiadas… Cortem-lhe a cabeça! Passado e presente.

A neura dos jalecos brancos tem origem em cenários de guerra espalhados pela Europa, em quartos sombrios embrumados em cheiro de éter. Lugares onde médico e dor eram sinônimos. Faz pouco tempo, pelo menos nesse país, que as torturas deixaram de fazer parte da instituição.

Em todo o tempo, espaço, realidades e dimensões em que eu resisti e reagi ou me alinhei e concordei com torturas e mutilações de qualquer tipo…

Em todo tempo, espaço, realidades e dimensões em que eu desisti de ser eu mesma para ser quem os outros queriam que eu fosse…

Em todo tempo, espaço, realidades e dimensões em que eu falei demais e fui punida por isso ou deixei de falar e fui punida por isso, por medo ou impossibilidade…

Em todo tempo, espaço, realidades e dimensões em que eu deixei de acessar o meu saber para seguir o dos outros, em que eu me permiti ser conduzida pelos outros…

Em todo tempo, espaço, realidades e dimensões em que eu acessei ou vivi a dor das mulheres que sofrem diariamente vidas torturantes, mutiladas, abusadas física e psicologicamente, em casa ou no trabalho, por familiares ou estranhos e passam a vida como sombras esmaecidas de si mesmas sem acessar o seu saber e o seu poder e, consequentemente, entregam essa impotência como uma herança maldita às gerações seguintes como a única forma de sobreviver…

Em todos os lugares em que eu comprei a culpa das gerações passadas por serem lindas, belas, exuberantes, perfumadas, poderosas…

Em todos os lugares em que eu aceitei carregar genomas de desgraça e desespero como destino…

Em todos os lugares em que aceitei a cultura como uma roupa apertada que me espreme a espontaneidade, a alegria, a criatividade…

Em todos os lugares e tempos em que eu assumi a carga dos outros para lhes trazer alivio porque, coitadinhos, eles não têm condições de carregar suas próprias porcarias, suportar as consequências das próprias decisões…  

Em todos os lugares em que aceitei o medíocre como sendo o normal da vida e me nivelei por baixo para não incomodar ninguém…

Em todos os lugares onde aceitei que o apelo sexual era a única forma de ser vista e me reduzi a um monte de carne com batom pendurada na vitrine…

Em todos os lugares onde acreditei que não nasci para ser feliz, mas para trazer felicidade aos outros; não nasci para brilhar, mas para acender os holofotes dos outros, não nasci para criar, mas para sustentar o poder dos outros e me contentei em ser segunda, terceira, a última da fila…

Em todo tempo espaço realidades e dimensões em que aprendi que era melhor calar do que arrumar confusão, deixa para lá que passa, não vale a pena brigar porque a vida é assim mesmo…  

Para tudo isso:

2 comentários em “Diário de um tempo estranho 6

  1. Bela reflexão. É isso mesmo. Quantos sapos engolimos só para sermos aceitos pelos demais, ou para sermos bonzinhos como nos ensinaram. Como cordeiros sem voz. O verdadeiro Cordeiro nos mostrou como agir, e se tivermos que destruir templos para trazer Luz, que assim seja.

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