O que vamos comer hoje?

As mudanças na alimentação geram distúrbios na família. É preciso respeito e aceitação das diferenças.

A cada momento temos escolhas a fazer, mais ou menos importantes, algumas fáceis, outras bem difíceis. A cada escolha moldamos a nossa vida. A cada escolha definimos  nosso futuro. Até aí tudo bem. A gente acha que tem livre arbítrio, então opta entre diferentes profissões, locais de moradia, filmes, amizades, namorados…

Contudo, assuntos particulares que parecem inofensivos podem ser de extrema importância. A dieta onívora comum na nossa sociedade ocidental contém porções diárias de proteína animal, gorduras, frutas, cereais, produtos industrializados regados com conservantes, corantes e melhoradores de sabor e mais algumas doses de bebidas açucaradas, às vezes alcoólicas. Em nome da praticidade, ingerimos suprimentos que acrescentam ao sistema físico e energético uma boa dose de toxinas, de forma que meditar se torna uma atividade heroica. São escolhas. Cada um sabe o que é mais importante, embora a maioria nem pensa sobre isso, apenas compra e come o que a mídia o faz acreditar que é bom.

E quem determina o que comemos? Nós temos completa liberdade nessa área? Óbvio que não. No início, a mãe coloca a comida no prato. Mãe e nutrição são quase sinônimos nessa fase. O cardápio tem duas opções: comer ou passar fome. Ainda pequenas, as crianças aprendem que a alimentação é importante para a mãe e isso vira uma ferramenta de barganha, um símbolo da resistência no estreito universo que ela pode controlar. Afinal, ela praticamente não controla nada no seu dia… O que começa como uma birra infantil se internaliza como hábitos que podem permanecer por muito tempo. Mas não para sempre. Conforme vamos crescendo, adquirimos uma certa independência emocional.

Na juventude, passamos a frequentar casas de amigos, entre outros lugares, e descobrimos que existem outras alternativas para encher o vazio no estômago. Acrescentamos alguns itens ao cardápio, eliminamos outros. Hoje em dia, temos acesso fácil a informações nutricionais e podemos decidir a partir de outros critérios, além dos hábitos familiares e sociais.

Comer é um ato social e político. O grupo determina muito das nossas escolhas. Por exemplo, viver numa cidade onde churrasco é o ponto alto do final de semana e decidir não comer carne é quase uma afronta à sociedade. “Como assim, você não come carne? Você não come nada, então?” Ai ai, como incomoda… Quer dizer que não existe nada além de carne para comer? Com tanta fartura e variedade de frutas, legumes, raízes, hortaliças, cereais…. Basta olhar em volta e ver a abundância que a natureza oferece.

Num primeiro momento, mudamos e geramos distúrbios no nosso pequeno grupo e, na sequência, em grupos maiores. A pergunta que se repete sempre com cara de espanto é: por quê? Para proteger os animais, a natureza e o planeta; para ser mais saudável e leve; para ter um corpo mais puro e apto a meditar; para não se poluir internamente com substâncias químicas; para honrar o templo sagrado que somos com nutrientes adequados ao nosso biotipo; para manter o sistema energético mais vivo e vibrante; para tornar a prática de yoga mais completa – ahimsa ou não violência… Existem tantas razões quanto pessoas nesse processo. Cada um tem as suas.

E como toda mudança gera conflitos, além de se cuidar, a gente precisa de muita paciência e tolerância para duas coisas, principalmente: de um lado, se explicar o tempo todo e aguentar tanto as críticas faladas como as veladas; de outro, respeitar as escolhas de cada um e não querer mudar o mundo. Cada um toca o seu barco como acha que deve, come o que quer. Mesmo quem se mata lentamente por ingerir o que lhe faz mal.

Seria desejável que as pessoas à nossa volta também demonstrassem respeito e aceitação por nossas mudanças, mas não se pode esperar delas o que elas não tem para dar. Sinceramente, o que mais me intriga de verdade é o porque as pessoas se incomodam tanto com o que a gente come ou não come. Será que a auto-disciplina incomoda? Será uma necessidade de controle ou apenas um medo atávico da mudança? Ou ainda o medo da separação – a alimentação seria percebida como uma peça de dominó que cai e empurra as outras até todo o jogo estar deitado pelo chão, abrindo uma fenda na caixa de pandora de incompatibilidades escondidas ou negadas, uma ameaça à vida como ela é? Ameaças ilusórias porém fortes o suficiente para gerar insegurança e acender a chama da agressividade. Cada qual deve aprofundar o trabalho de auto-observação para avaliar o que é real e manter a sanidade. Processos inconscientes dominam a cena.

Daí a gente sente na pele o quanto uma simples alteração numa célula em casa gera de desconforto na estrutura familiar. Extrapolando para o nível macro, se entende porque pequenas mudanças em leis ou sistemas numa sociedade podem levar a revoltas e guerras.

Voltando à família, que é o nosso campo de trabalho diário, se não conseguimos manter a paz à nossa mesa, como esperar a paz em escala nacional ou mundial? O exercício é interno, individual – um exercício de tolerância, compaixão, disciplina, paz e amor próprio. Não é saudável se anular em prol da manutenção do status quo. As mudanças são necessárias, levam ao desenvolvimento e à criação de uma vida mais harmônica e equilibrada para nós e todo o planeta. Assim, Gandhi nos convida ao trabalho com maestria: “Seja você a mudança que quer ver no mundo.” Transforme-se.

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