Espelho, espelho meu…

Espelho, espelho meu, diga se há no mundo alguém mais _________________ do que eu?

Complete a frase acima com o sentimento de hoje: mais feliz, mais chato(a), mais irritado(a), mais leve, ansioso(a) ou sonolento(a)… afinal é segunda-feira depois de um longo feriado, mais o quê? Como se sente?

Quanto mais percebemos o nosso estado emocional a cada instante, mais nos familiarizamos com a montanha russa do nosso temperamento, as emoções no comando do nosso estado de humor, oscilando a cada input de fora, a cada novo evento. O que vem primeiro: a irritação ou o estímulo que fez você se sentir irritado?

A minha sensação é de que quando pudermos observar os sentimentos sem estarmos inteiramente afogados neles, então poderemos nos desvencilhar deles se quisermos,  ou não, mas teremos essa opção – quando eles nos dominam, não escolhemos nada, sucumbimos ao seu poder.

Lá vai um exemplo pessoal, fui ao mercado. Estacionamento lotado. Fiquei esperando uma vaga. Havia uma pessoa aparentemente pronta para sair mas não saia, devia estar no whatsapp ou qualquer coisa parecida, sem pressa nenhuma. Formou-se uma fila atrás de mim. Confirmei com o manobrista se ela ia sair mesmo, ele disse que sim, porém… Depois de uma longa espera de um minuto, a mulher foi embora. Estacionei. Comprei o que precisava. Bem na hora de ir, meu celular apitou uma mensagem. Claro que eu chequei imediatamente – por que sempre parece urgente o que vem pelo telefone? E mais: ia responder ali mesmo quando vi outro carro esperando que eu saísse para entrar naquela vaga e eu ali…. Essa doeu. Tudo que vai, volta. O universo me respondeu na mesma viagem, sem nenhum delay.

Me flagrei fazendo a mesma coisa que a motorista sossegada: deixar alguém esperando por mais tempo do que deveria afinal, todo mundo está sempre com pressa nessa cidade – para que tanta pressa também não sei, mas isso já é outra estória. O fato é que me julguei por ter julgado a moça.

Fica a dica: atitudes que nos irritam nos outros, nós também fazemos mas não temos a capacidade de percebê-las em nós. Nos outros é fácil ver, eles jogam na nossa cara os nossos “defeitos” ou atitudes mesquinhas.  Se mantemos a postura nós X eles, vamos continuar achando que eles são os errados e nós sempre os certos e não vamos evoluir em nada porque sempre deixamos fora o que está dentro e continuamos julgando como deuses no olimpo da nossa própria desgraça.

A gente só consegue notar nos demais o que temos dentro – sejam coisas suaves e maravilhosas ou tortas e medonhas – em maior ou menor grau, essas coisas fazem parte da nossa psique. O mundo exterior reflete o nosso mundo interno e através do exterior podemos nos re-conhecer e acessar as nossas curas.

Por isso, Gandhi disse: seja a mudança que quer ver no mundo. Não tem como mudar o outro, é insano aventar tal hipótese, fracasso na certa. A única ferramenta de trabalho que temos é nós mesmos, nós somos o único campo de batalha onde vale a pena lutar para vencer os nossos monstros internos, os nossos medos e nossas limitações.

Por isso, por mais que algumas pessoas nos irritem ao extremo, deveríamos sair da postura de vítimas da situação, deveríamos ser gratos a elas porque elas nos mostram o que precisamos mudar ou lapidar em nós mesmos para sermos cada vez mais compassivos e iluminados.

Todo mundo faz o melhor que pode.

Essa lição aprendi com a minha terapeuta-fada anos atrás, Simone Lucena. De alguma forma, foi um choque porque logo pensei nos sujeitos “malvados” e ela me explicou que somos todos algozes e vítimas. Mesmo as pessoas que estão se matando em disputas e guerras, roubando, se drogando.. elas também estão fazendo o melhor que podem dentro do seu nível de consciência. Ah essa tal consciência…

A cada dia, a cada escolha, o nosso mundo interior se alarga, a nossa consciência se eleva, ou infelizmente pode seguir o caminho oposto. Somos seres em constante mutação, novos e velhos a cada momento. As decisões que tomamos anos atrás, não seriam as mesmas se soubéssemos então o que sabemos hoje. Por isso, o auto-perdão é tão importante. Não adianta ficar se culpando por coisas que não deram certo ou terminaram mal. Nós fizemos o melhor que podíamos com a consciência que tínhamos na época. Pronto. Libera. Deixa ir. Desapega. Desapega de sofrer pelo que passou. Bola pra frente.

O importante é focar nas decisões de agora que moldam o amanhã. Não é à toa que tem um livro inteiro chamado “O Poder do Agora” de Eckhart Tolle (excelente leitura). De hoje em diante, que mudanças posso fazer para melhorar as questões que me limitam, que me afligem, que me impedem de ser feliz. Quais decisões preciso rever para ter a vida que mereço e ser pleno agora. Aqui cabe uma reflexão profunda para evitar a repetição de padrões negativos de pensamentos e comportamentos viciados.

Tem só uma pegadinha nessa estória: a decisão mais importante, da qual muitas vezes nem temos consciência, é interna e silenciosa – quais pensamentos vou nutrir na minha mente. Os pensamentos criam a realidade. Isso tem sido repetido à exaustão. De que forma podemos controlar esse macaco louco dentro da cabeça da gente que insiste em ficar obcecado por pensamentos negativos – “ah isso nunca vai dar certo; você não é bom o suficiente; o chefe nunca vai aprovar a verba do seu projeto; você é velho demais para mudar de área; acha que pode encontrar o amor da sua vida nessa idade? sem chance!” São tantas as chibatadas que aplicamos em nós mesmos! Quem precisa de um carrasco externo quando temos um de plantão 24h pronto para o massacre! Nós somos os responsáveis por nossos sucessos e fracassos.

Voltemos aos pensamentos… Quem comanda a sua mente? No budismo aprendi que a mente é o cavalo e nós somos o cavaleiro. Você vai deixar o cavalo seguir galopando por aí como bem entende ou vai tomar as rédeas da sua vida na mão e definir seu próprio destino? E quem em nós é esse cavaleiro? Muita gente pensa que é a própria mente. Mas não, a mente é o veículo a serviço do cavaleiro. Existe alguém observando por trás da mente, alguém que testemunha cada pensamento ou emoção, a sua consciência.

Se você se identifica exageradamente com seus pensamentos, fica refém deles para o bem ou para o mal. Por exemplo, se alguém te trai e você sente raiva, você pode se identificar tanto com a raiva de forma a querer se vingar e transformar isso num “projeto de vida”. Se você se sentir preso numa teia desse tipo, é preciso investigar a fundo: será que é para isso que você está no planeta, para se vingar? Que lições essa traição te trouxe? O que em você atraiu essa situação para a sua vida nesse momento? Pode ser que seja necessário ajuda terapêutica ou não, principalmente se as estórias se repetem com frequência, mas o caminho sempre leva para dentro, rumo ao auto-conhecimento.

Quem se identifica demais com os próprios pensamentos não consegue meditar. Também aprendi isso no budismo e, no princípio, achei muito estranho. Como pode haver alguém que não consiga meditar? A meditação coloca os pensamentos, sem julgamento, na categoria de nuvens no céu azul. O céu é sempre azul acima das nuvens. O céu é a sua natureza limpa, clara e serena. Mesmo quando há tempestade, o céu é azul. É infinitamente reconfortante saber que somos mais o céu do que as nuvens. Que a chuva passa. A angústia, a tristeza, a raiva passam. Enquanto isso, a nossa natureza básica permanece limpa e clara. Quando acessamos esse manancial de plenitude e os problemas surgem, podemos olhar para eles com calma e tranquilidade porque sabemos que eles também passam. Com calma e tranquilidade, temos mais ferramentas para trabalhar essas questões, temos mais acesso à sabedoria universal, ao divino em nós.

A chave desse céu não está nas mãos de São Pedro ou de qualquer guru mas sim nas mãos de cada um e só nós podemos abrir as portas do nosso céu – com a prática diária do auto-conhecimento.

Você sabe o que você quer? Então peça.

Fala-se tanto que somos co-criadores da nossa realidade, que se pode usar a lei da atração para prosperar, mudar de emprego, arrumar namorado… Tão simples e, na prática, tão complicado. Será que não confiamos no universo?  Será que não sabemos pedir? Ou será pior ainda, sabemos pedir mas não nos sentimos merecedores dos nossos desejos e sabotamos inconscientemente os nossos próprios projetos?

Aí vai uma história de alguém que aprendeu a pedir e confiar.

Num impulso juvenil insensato, casei aos 21 anos. Uma semana antes da cerimônia, soube que estava tudo errado, mas não tive coragem de desarmar o circo contratado para a reunião de mais de 300 pessoas que meus pais estavam me proporcionando com tanto amor e sacrifício. Casada, vivia sozinha na minha casa de bonecas grande. Apesar de muitas tentativas para me aproximar daquele ser estranho que dormia ao meu lado, nada funcionava. Contudo não conseguia me separar. Vivia sob o dogma: “o que Deus uniu, o homem não separa”. Foram cinco anos tristes e tortuosos levando a um final orquestrado em terapia.

A psicóloga era minha xará e sua atuação foi decisiva. Em três semanas, consegui um advogado e dei início ao processo. Depois de meses de negociação, enfim a liberdade. Conquistei meu apartamento pequeno e lindo, meu canto, meu sossego e minha solidão verdadeira aos 26 anos.

Desenvolvi uma técnica para me aproximar dos homens – os primeiros encontros deveriam ser curtos, como um café ou sorvete para que eu pudesse fugir rapidamente ao primeiro sinal de alerta amarelo piscando. Me tornei mestra em arrumar defeito nas pessoas e assim fui criando uma carapaça de proteção (ou de medo). Resolvi voltar à terapia. Sábia decisão. Também recorria à sessões semanais de shiatsu para aliviar a tensão nos ombros e intensas dores de cabeça. Um dia, meu massagista estava tentando desatar os nós de tensão nas laterais do osso esterno e começou a falar: “essa região está muito dolorida, você deve estar com o coração fechado. Como vão seus relacionamentos?” Eu só dei de ombros. Ele continuou: “então por que você não pede o que quer?” Como assim? Eu retruquei. “É, pedir, mas pede direito, pede com detalhes, o máximo que puder porque se não, você pede um cara que goste de você e ele mora no Recife, vai ser bom? Não. Pega um papel, escreve o que quer, guarda e esquece. Deixe o universo providenciar a encomenda para você.”

Achei meio doido, mas afinal, eu não tinha nada a perder e não custava nada.

Votei para casa, jantei um pacote de pão de queijo, peguei meu diário e liguei o motor. No início, estava lá, escrevendo e pensando que era a primeira vez que eu fazia um esforço consciente para detalhar coisas tão importantes para a minha vida. Continuei escrevendo e, aos poucos, fui sumindo até não estar mais lá: a minha mão continuou a marcar letras no papel independente da minha vontade. Escrevi cinco páginas ricas em todo tipo de detalhes: altura e medidas, cor dos olhos, peso, tipo de trabalho, gostos alimentares, interesses sociais, ele teria de ter sido casado mas sem pensão e sem filhos, teria seu apartamento próprio mas não moraríamos nele e nem no meu, muitos detalhes… No início, lê-se 8 de março de 1997. Depois disso, meu caderno recebeu mais impressões, guardou outros segredos, fiel companheiro em cada momento.

Em junho fui para França e Itália de férias. Trouxe para a minha terapeuta-xará uma corrente com pingente de coração partido, dessas que se divide e fica uma parte com cada pessoa, amigo ou namorado. Ela abriu o pacote e ficou paralisada. Assumi que não tivesse gostado do presente. De repente, ela levanta de um salto e diz: “tá, eu vou ter de falar, eu conheço a sua alma gêmea. Só que deixa que Deus põe ele no seu caminho. Pronto, falei.” Protestei no ato: Deus, que Deus? Deus é você agora, você não pode me deixar assim!!!

Ela tinha atendido esse paciente anos atrás – uma terapia de casal que se transformou em divórcio. Terminada a terapia, ficaram amigos por um tempo. Quando voltei de viagem, ela estava desatualizada da vida dele, mas a obriguei a investigar.  Descobriu que estava desempregado. Bingo! Eu era muito bem relacionada no mercado e esse seria o motivo de armarmos um encontro sem que ele suspeitasse de nada. Um mês infinitamente longo se passou até acertarmos uma data. Ele chegou atrasado à clínica no final da minha consulta. Como eu tinha desistido de esperar, desci as escadas para ir embora. Ele, na recepção, me olhou e meus joelhos começaram a tremer com uma flexibilidade inimaginável e ainda por cima faziam um barulho de ranger de dentes absurdo, pareciam duas metralhadoras – que vergonha!

A conversa foi breve, objetiva, de negócios. Pedi o currículo dele e aguardei – dias sem dormir. Ele foi entregar os CVs na minha casa. As fotos da viagem espalhadas na mesa. Ele conhecia todos aqueles lugares,  tinha ido aos mesmos shows que fui, lido os mesmos livros, comido nos mesmos restaurantes, ouvido os mesmos CDs…. Bem, nunca mais ele foi embora.

Depois de uns três meses que estávamos juntos, me lembrei do pedido no diário. Curioso, ele se pôs a ler imediatamente e suspeitou que eu tinha anotado tudo depois de nos conhecermos, pois era uma descrição perfeita dele, com muitos detalhes, escrita no dia do aniversário dele – que até então eu não sabia qual era.

Pois é, 20 anos se passaram. Hoje (3 de abril), comemoramos 18 anos de casamento, com três filhas, muitas mudanças, muitas experiências, muito aprendizado.

Você sabe o que você quer da vida? Então peça!

Silêncio

O silêncio é muito importante para manter a minha sanidade. Imagino que todas pessoas se beneficiariam muito de momentos de silêncio, de quietude, sem interferências ou eletrônicos de qualquer tipo.

Houve um tempo, quando eu morava só, em que não havia um minuto de silêncio na minha vida. Eu entrava em casa depois de horas de trabalho e trânsito e ligava automaticamente o aparelho de som na sala. Percebo em vários lares a TV como o som ambiente de todas as horas – mesmo quando ninguém está assistindo, ela está lá, implantando desejos de consumo, enviando mensagens subliminares, noções básicas de violência e medo disfarçadas de distração. Para afinar conceitos, distração = distrair da ação, algo que te tira do que você deveria estar fazendo – que é se cuidar em primeiro lugar.

A TV nunca me atraiu, raramente assistia e, naquela época, me cobrava muito por isso. Pelo meu trabalho em marketing, eu deveria assistir tudo todos os dias, saber o que os concorrentes estavam anunciando e todos os atores e atrizes que despontavam no cenário dos desejados. Que nada, para mim TV já era um desperdício, mesmo pagando as minhas contas. Mas a música estava sempre lá, a trilha sonora de cada pensamento.

O silêncio é uma imersão em mim mesma, uma busca do meu mundo interior onde as respostas brotam como as flores na primavera. O silêncio é um estado do ser de pura contemplação da essência. A essência não precisa de adjetivos, não precisa ser qualificada como bela ou ruim. A essência apenas é. Pura. Além da casca das aparências, além das vontades e desejos humanos. A essência traz a serenidade da saciedade porque afinal, o que mais seria necessário? Na essência, a tristeza se dissolve em luz, a raiva perde o sentido.

Quando o silêncio é uma fuga da vida que machuca, de pessoas que incomodam, de situações que não conseguimos resolver, ele pode vir em forma de sono exagerado ou a letargia que te afunda pesado no sofá, uma forma de isolamento. O silêncio do não falar o que é preciso dói, fica latejando. Não resolve. E a gente sai dele cansado.

Como transformar um silêncio estilo #fui #todemalcomvocê #medeixaempaz em uma oportunidade de auto-conhecimento?

Foco. A lente do nosso telescópio deve ser movida do cometa/problema em si para a gratidão de poder sentir o que é real, de saber que há algo destoante para ser purificado. Apenas quando nos damos conta de que há algo para arrumar é que podemos realmente empreender a faxina interna. O que existe de negativo fora é reflexo do nosso mundo interior.

As nossas crenças, muitas delas limitantes, não permitem que possamos atuar como comandantes do nosso destino. Somos reféns das nossas crenças, verdadeiros escravos de um projeto de sufocamento do nosso  potencial. Criado por quem esse projeto? Em última análise, quem é o responsável pelos nossos sucessos ou fracassos como pessoa humana? Os pais que te criaram da melhor forma que puderam fazer? O governo que impõe custos injustos e impostos? A família que não te apoia ou compreende? Deus ou o diabo?

Olhe no espelho.

No fundo no fundo mesmo, nós temos o poder de mudar, mas temos tanto medo da mudança que ficamos paralisados. A “mudança” se elevou à categoria de uma entidade que assombra as pessoas. Queremos segurança num planeta que viaja a zilhões de quilômetros por segundo pelo espaço. Queremos segurança de que amanhã será tudo igual. Como assim? Numa tentativa insana, criamos as caixinhas e nos enquadramos nelas: preciso agradar as pessoas de certa forma para elas me amarem, caso contrário, ficarei sozinho… Por que é tão perigoso, tão assustador ficar sozinho?

Sendo que nunca estamos sozinhos de verdade mas para saber disso precisamos ficar em silêncio, a sós, para sentir a imensidão no nosso ser em comunhão com o universo.

Grande inspiração “Se eu quiser falar com Deus”, Gillberto Gil https://www.youtube.com/watch?v=3eKnerBU4HY

Caminhante, se faz o caminho ao andar

Como reagimos quando temos um relacionamento e algumas diferenças entre nós, até então despercebidas ou aparentemente sem relevância, começam a incomodar muito, como feras de garras afiadas prontas para o ataque ou como muros intransponíveis?

Se você tem um relacionamento, você atraiu essa pessoa por vários motivos. Houve uma sintonia consciente e inconsciente. A sintonia consciente refere-se, por exemplo, à idade compatível, nível sócio-cultural equivalente (conseguimos “falar a mesma lígua”), aceitação mútua das famílias de cada um e das atividades que exercem etc – a lista pode ser longa.

A atração inconsciente tem a ver com o padrão de energia que emitem, mais densa ou mais sutil, (in)compatibilidades espirituais e também com os contratos que fazemos antes de nascer – o que nos propomos a aprender nessa vida? Quem serão  nossos companheiros nessa nova estória? A inteligência do universo coloca essas pessoas no nosso caminho. Às vezes, reconhecemos esses seres como atraentes, outras vezes, como insuportáveis. As reações negativas extremas também indicam tarefas a cumprir. Podemos não aceitar no momento, buscar qualquer recurso para ficar longe dessas pessoas. Isso seria assunto para outro dia.

Vamos supor que aceitamos o convite e começamos a nos relacionar com o amor de nossas vidas. Abraçamos com carinho e emoção essa pessoa que o universo nos enviou, constituímos uma família linda, criamos filhos saudáveis! Tudo muito bom, tudo muito bem até que surgem questionamentos. Se estamos desenvolvendo o nosso compromisso espiritual e vivendo a nossa missão mesmo sem saber, estamos em paz. Mas se temos dúvidas em relação ao sentido da vida e começa surgir um vazio existencial, uma angústia, uma sensação de não pertencimento… Das duas, uma: ou fingimos que não é com a gente e enfiamos a cabeça na terra igual avestruz esperando “essa coceira existencial” passar, ou saímos em busca de respostas. E assim começa a nossa jornada do herói.

Quando lançamos ao universo um pedido do coração, da nossa essência, ele responde, ele sempre responde. E, como li ontem num outro post (não encontrei o link, sorry), a resposta é sempre Sim! As pessoas certas aparecem, livros caem da estante no seu colo, cursos e seminários, a vida flui e te supre com o material necessário. (Tenho uma estória bem pessoal e romântica que vou colocar logo logo sobre as respostas maravilhosas do universo. Aguardem.)

E como fica o companheiro(a) que está a seu lado, lhe dando força, coragem, ânimo, suporte e cafuné por tanto tempo? Ele(a) se atira junto nessa viagem ao desconhecido? Maravilha. Ou ele (a) empaca na negação: “não, não, está tudo bem, para que mexer em time que está ganhando? sempre resolvemos dessa forma, para que mudar agora?, vamos ficar por aqui mesmo que é confortável, tranquilo….”

A relação vai passar por estremecimentos, ajustes, até rupturas que podem ser temporárias ou não. As rupturas podem se apresentar no corpo físico se forem muito fortes. Faz parte. Faz parte do crescimento individual. Faz parte do crescimento do relacionamento para atingir um novo patamar de cumplicidade. Contudo, faz parte também ter respeito e compaixão. Respeitar o movimento de um, respeitar a pausa do outro. Respeitar o espaço de cada um, sua individualidade, seus interesses. Respeitar novas opções alimentares e sociais. Respeitar os momentos de silêncio e terapias. Respeitar a coragem de um lado e receio do outro. Dar o tempo que se faz necessário para subir à superfície e tomar fôlego antes da próxima investida às profundezas do ser. Nessas horas, o respeito é mais importante que o amor. Nessas horas, o respeito se enche de compaixão, aliviando o sofrimento, a dúvida e a incerteza do outro.

Saber que escolhemos essa pessoa para estar ali nesse momento e testemunhar o nosso despertar é ainda mais belo quando podemos proporcionar o conforto para que ela também avance na sua própria senda interior. Não há trilhas prontas a seguir, cada um faz seu caminho, como sabiamente nos explica o poeta Antonio Machado, em Cantares:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

Traduzindo à minha maneira:

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
Se faz o caminho ao andar.
Ao andar se faz o caminho
E ao voltar a vista atrás
Se vê a senda que nunca
voltarás a pisar.
Caminhante, não há caminho
Senão pegadas no mar.
Poema cantado lindamente por Joan Manuel Serrat: https://www.youtube.com/watch?v=Lj-W6D2LSlo

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