Algumas coisas acabam antes de começar…
Antes de nascer, uma vida pode se desmanchar no útero. De qualquer forma, já era uma vida. Antes de namorar, alguns contatos se esfumaçam no silêncio frio das infinitas distrações modernas.
Seria já era um relacionamento?
Muitos dizem que não, principalmente quem está interessado em seguir rapidinho para o próximo da fila, ou melhor ainda, seguir administrando o CRM de candidatos. Alguns nem passam da fase de currículo pois não apresentam os talentos necessários ao cargo. Outros são bloqueados na primeira entrevista – 99% das vezes sem qualquer tipo de retorno. Porém, a maioria somente fica perdida no mar de possibilidades. Nada de errado ocorreu, nenhum erro crasso foi cometido, apenas… enfim… ficou para depois e entrou uma nova alternativa e outra e outra… e aquela foi esquecida e a conversa se perdeu nos porões de um direct qualquer.
O que se nota é uma série de inícios, conversas rasas perdidas na nuvem da mídia social que sim, tem um papel de ponte, faz conexões, porém não aprofunda nada a não ser que haja dedicação e interesse. Quando se tem inúmeras opções, isso pode gerar ansiedade e levar a uma ‘não escolha’: tentar manter todas à mão disponíveis pois quem sabe… se esse aqui não funcionar como eu desejo, então ainda tenho “ativas” a opção B, C, D… todo o alfabeto.
No meu interessante ponto de vista, sinto que cada início é um relacionamento sim. Na minha época de menina, era o tempo da paquera, de descobertas, investigações, suspiros… e como era gostoso! Sem laços e sem promessas, porém a intenção de conhecer, de se abrir e se mostrar traz em si uma semente e uma semente contem a árvore toda dentro de si.
Ter inúmeras escolhas pode levar a não decidir por nenhuma. Toda escolha implica em perda e muitas pessoas não querem perder nada e, ao se posicionarem dessa forma, terão exatamente isso: nada.
Se olhamos para um buffet de almoço com 300 opções de pratos deliciosos e nos propomos a experimentar um pouco de cada… Você pode imaginar o que vai acontecer: até terminar de se servir, a comida estará fria. Se lhe apetecer algo em particular, como voltar e encontrar, onde estava mesmo? Se a sua gula der conta de comer de tudo, o hospital lhe aguarda para uma lavagem intestinal.
A vida é feita de escolhas. Conscientes e inconscientes. Cada um desses ‘não relacionamentos’ que acaba antes de começar secretou adrenalina, ocupou a lugar na mente, fez a imaginação sonhar, gastou energia e tempo. Desperdício. Cansaço, ai que preguiça de começar de novo. Entendo perfeitamente quem desiste de se relacionar porque cansa mesmo. Também entendo muito bem quem nunca desiste.
A cada pequeno luto que a vida nos traz, faz sentido a tristeza estar presente. Faz sentido cuidar do coração machucado, mesmo que seja necessário apenas um band-aid e um amigo com boa capacidade de escuta para estórias que se repetem feito disco arranhado. Faz sentido um fechamento mesmo que não tenha havido a despedida.
Permita-se sentir. Não negue esses pequenos lutos, nem que doeu e que aquela esperança tão linda foi em vão. Delete os arquivos que foram abertos, faça seus fechamentos – escrever uma carta de despedida é uma boa ideia e nem precisa ser enviada, basta tirar de dentro do peito os sentimentos que incomodam. O que importa é encerrar dentro de você. Depois, se for a escolha, é tempo de sacodir a poeira e harmonizar a energia para mudar a frequência das conexões.
