vou te mostrar um caminho por onde andei
por onde andei posso te conduzir
te mostrar as belas paisagens da alma que se apresentam a cada passo
por onde andei
esse caminho que eu criei
na realidade
não existe mais
esse caminho que foi sendo montado com cada pedra que sustentou meus pés
colocada ali embaixo pela divina presença
esse caminho foi sendo construído à base de atrito, gravidade, peso, pressão
assim como se constroem os ossos no corpo
assim como os diamantes são feitos
esse caminho me permitiu deitar na liteira e ser levada com conforto ao sabor da brisa até um trecho cheio de solavancos e buracos
esse é um caminho onde houve dor e alegria
onde houve grandes momentos de felicidade e de prazer e solidão
caminho onde eu pude ver e sentir a vida pulsando e
me empurrando para fora da estrada
e eu resistindo e morando na dor
machucando os pés a cada pedra pontiaguda na qual eu pisava
a ideia era clara como o dia
demorei a encontrar em mim a coragem
achei que ser forte era resistir
fiquei tentando consertar, ajustar, recapear…
gastando energia numa estrada erma e sem flor, sem perfume
um dia, sentei nesse chão seco e chorei – de tristeza e de contentamento
tristeza pelo fim de um caminho que sonhei duraria para sempre
contentamento por finalmente ver o princípio de uma trilha nova dentro de mim
ainda enevoada como a manhã na serra
aquele frio na barriga esquisito de não saber ao certo o que estava fazendo misturado com o frio na barriga delicioso de não ter mais as velhas sandálias gastas para calçar
eu poderia seguir descalça
pausei na estrada por um momento
cansada e triste e segui descalça
aprumando as asas
deixando cair por terra as mochilas que não precisaria mais carregar
levando apenas um coração cheio de vontade de viver
alí na beira da estrada
eu estava só
na minha solitude
na minha companhia
na minha vontade de ser
o único a fazer era seguir em frente
viver é seguir em frente
