Esse mês de julho está bem na contramão do ano passado que foi todo fora de casa, viajando. Viajando uma viagem de belezas e tensões, alegrias, delícias, percepções e acesso ao velho mundo. Viagem desejada, por um lado, e indesejada por outro na forma e estrutura. Viagem de pseudo despedida, na resistência à mudança inevitável.
Nesse julho de 2024, não houve negociações de agenda, datas ou locais. Em voo solo, escolhi fazer a reclusão necessária para operar os olhos. Estar em casa, pouca atividade, sem confusão, sem saídas, sem estresse – modo preservação de energia ativado – para cuidar de uma parte do meu corpo tão importante e tão limitada desde que nasci.
Será que verei tão bem de olhos abertos como vejo de olhos fechados?
Ao liberar apenas um olho, já deu para notar que tenho muito mais cabelo branco do que imaginava. Espelho, espelho meu… As cores tem mais brilho, brilham demais. O sol brilha tanto que tive de resgatar os óculos escuros. Como será depois da outra metade do trabalho estar concluída?
Antes de optar por essa via, testei todos os tipos de lentes de contato, troquei de oftalmologista várias vezes, tentei usar óculos multifocal – um fracasso retumbante. Busquei um médico especializado para fazer cirurgia e ele, muito honesto, me aconselhou a não operar então, e esperar a inevitável da catarata e corrigir o que fosse possível numa única intervenção.
Nenhuma das opções foi satisfatória para mim e passei muitos anos literalmente enxergando mal. A própria viagem do ano passado deixou isso tão evidente que doía na alma não dar conta de ler roteiros simples. Graças à filha mais velha copiloto de todas as horas, pesquisadora de tudo o que era necessário na internet, foi possível viabilizar as estadias e passeios. Ela não estará à minha disposição 24h, então… devo me ajustar.
Feito o procedimento no olho direito, entro em recolhimento, deixo de fazer mil atividades no dia, deixo de atender… Um desafio para esse ser acelerado que sou. O tempo frio convida a calma e o cobertor para entrarem em casa. Gratidão por poder ajustar esse departamento de saúde com conforto.
A cidade não para porque eu reduzi a minha velocidade. Mas a Vida aceita meu ritmo. Nesse momento, é tempo de tirar o pé do acelerador, contemplar, estar mais introspectiva, sutil, sem pressa… É tempo de reduzir a oscilação e excitação desse semestre cheio de novidades e complicações. Descansar. Relaxar. O primeiro semestre me trouxe inúmeros desafios, muitas mudanças e adaptações. O gasto de energia foi intenso. Um tempo off vai bem.
